[Diário de Viagem] Azerbaijão #01: O que me levou ao Azerbaijão
Posted by

[Diário de Viagem] Azerbaijão #01: O que me levou ao Azerbaijão

Como é difícil começar isso aqui. Eu digo, um diário de viagem. Não deveria, já que é só descrever o que estou vivendo, mas o ato de parar, sentar, pensar, relembrar, reviver e transcrever essas memórias, é que torna o óbvio um tanto complicado. Mas maior do que a “preguiça” (nossa, como essa palavra vem descendo rasgando em mim nos últimos dias. Já chego lá. Talvez não já, mas chegarei nela. Não por preguiça, como eu disse, estamos em conflito, mas por causa do caminho mesmo, foi bastante longo até o indesejado e assombroso reencontro) é a vontade de contar tudo que estou passando, desde os lugares que percorro, até as situações que vivo e aprendo. Não, não dá para não registrar e guardar essas memórias em um lugar mais confiável… Peraí, definitivamente não posso usar esse termo aqui depois de tudo que aconteceu com esse blog nos últimos anos (entenda aqui). Deixa eu reformular. “Não, não dá para não registrar e TAMBÉM guardar essas memórias num CANTO FÍSICO”, onde eu possa reaprender toda vez que me sentir desviando do caminho que a vida me traçou. Além, claro, de dividir, partilhar, participar e possibilitar o aprendizado de outros, que no fundo é o sumo da convivência humana. Na estrada ou em casa tudo se resume ao outro, as relações e de como a gente encara esses encontros. Em casa essa construção pode ser mais demorada, cabe a sutileza nas situações e talvez exija uma sensibilidade maior para se entregar a evolução. Na estrada, não, é tudo as claras, ou a gente compreende para prosseguir ou morre na praia. A sensibilidade permanece, mas muda de sentido aqui fora. Deixa de ser a qualidade do sentimento, para ser a faculdade de receber as informações e perceber as mudanças que elas causam. No fundo é a mesma coisa, na prática muda tudo.

Estou em Tbilisi na Geórgia de novo. Faz todo sentido eu começar escrever os diários de viagem aqui. Pensando bem agora entendi porque me veio todas essas palavras na ponta dos dedos. Foi esse sentimento que me bateu depois de algumas semanas “parado” nesse mesmo lugar onde estou “parado” agora. Antes eu estava editando agora estou escrevendo então as “” são bem convenientes (para a interpretação e para a consciência). Não tô maluco, peraí que explico e vai fazer todo sentido no todo.

Viajei pelo norte da Geórgia e cheguei em Tbilisi com um propósito certo: tirar o visto para o Irã. Tentei a primeira vez na Turquia, em Trabzon, que, teoricamente, é o lugar mais fácil (leia-se rápido) para conseguir. Mas acabei banido saindo do país antes de completar o processo.

Cheguei aqui na capital, fiz o que tinha que fazer e ainda consegui dar um rolê por outros picos da região (assunto e assuntos para outro diário). Quando dei por mim tinham ido embora semanas nesse pedaço de saga georgiana. E assim nasce (novamente) um negócio que gosto de chamar de interrogação desconstruída. É um incomodo que por vezes pode ser confundido com tristeza ou frustração (olha a sensibilidade tendo que trabalhar rápido…). Essa inquietação geralmente é o momento me puxando para reflexão, avisando o cara que não planeja, que (quase sempre, com certeza) é a hora de partir. O problema é que esse sentimento não tem forma. Você só recebe o puxão. Cada situação ele se apresenta de um jeito e isso perturba.

Olha eu de frente novamente com o maior dos obstáculos no desafio de viver a viagem. Cair no mundo parece uma exclamação gigante, quando na verdade é uma interrogação. Bingo!

A partir do momento que coloquei esse feeling no molde, consegui transformá-lo num step. Sabe aquela velha premissa de pegar os bloqueios e construir uma escada? (obrigado sabedoria popular!). Às vezes quando certos pensamentos vem na minha cabeça, eu procuro não os colocar numa fôrma de ponto final (não sei se é assim que escreve forma, mas nada me tira da cabeça que para esse sentido que quero expressar, a palavra precisa de um acento ^ ali), mas enxergar a interrogação é o que tem me ajudado evoluir.

Substituir o “eu perdi tempo (ponto)” por “porque eu ainda estou aqui?”; o “eu não sei pra onde ir agora (ponto)” por “pra onde devo ir agora?”; o “você não fez nada esse tempo todo (ponto)” por “o que aconteceu nesse tempo todo?”. Ponto me paralisa, interrogação me faz avançar. Entende o porquê do sentimento ser desconstruído? Simplesmente na estrada nada é o que parece ser, daí a gente cria uma interrogação que logo a vida encarrega de nos responder… “Azerbaijão!” (olha só, a viagem também é exclamação).

Não quis pensar muito. Eu entendi o recado quando o novo destino bateu no meu ouvido. Entrei no site, apliquei para o visto eletrônico e três dias depois ele já estava me chamando na caixa de entrada do e-mail. Engraçado que quando tomei a decisão de incluir os “ão” na minha viagem, coisa que não estava no “planejamento inicial que nunca existiu”, o bloqueio foi embora na hora. Estava há dias tentando colocar no papel meus próximos passos, mas nada saía. Eu não conseguia mentalizar os destinos e muito menos saber por onde começar a pesquisar como chegar neles. Na verdade, externando aqui agora vejo que foi simplesmente não ter certeza para onde ir mesmo. Eu queria o que não era pra ser (ou eu não sabia o que deveria ter de ser). Quando a resposta chegou, trouxe tudo. Eu saí do hostel 9:45 da noite com o notebook na mochila, desci três quarteirões até o Mc Donald’s, procurei o canto mais gelado do prédio, sentei numa poltrona de uma mesinha baixinha para dois, abri o computador e em poucas horas já estava voltando para o hostel, destravado e com todas as peças montadas de um quebra-cabeça que fiquei tanto tempo tentando resolver. Nossa como estava leve. Leve o suficiente para levantar voo.

Acordei no outro dia com tanta certeza que arrumei minhas coisas e comecei as despedidas. Pouco tempo depois já estava cruzando o arco velho de tijolos da vila onde fica o DownTown Tbilisi Hostel e seguindo a pé para a Station Square. Não fazia ideia dos horários das marshrutka (se é que tem horário certo) aquelas vans, a única informação que encontrei na internet para se chegar no Azerbaijão de forma independente era cruzando a fronteira da “Red Bridge”. No dia anterior tinha ido no centro de informações turísticas, pedir para a moça escrever na língua local o nome do meu destino final, pra facilitar minha comunicação com os motoristas e não na Armênia, por exemplo.

Arco de tijolos do hostel em Tbilisi

O papel ajudou, mas não significa que foi fácil. Lá estava eu num mundo de lugar, rodando de um lado para o outro com meu mochilão no auge do seu peso (isso que desapeguei de mais uma trouxa de coisas, mas não sei o que acontece de verdade, enfim…). A Station Square é um centro de escambo praticamente, não que alguém troque alguma coisa lá, com certeza não. Lá a galera está com sangue no olho é pra vender. É estação de trem (toma gente entrando e saindo). É shopping, é feira do rolo, lugar de eletrônicos, roupas, sapatos, tem também usados e alguns prováveis roubados (toma gente cheia de sacola). É lugar de feira, afinal, onde tem gente tem comida (toma gente comendo). É terminal de ônibus circular e vans (as famosas marshrutkas) intermunicipais (toma gente chegando e saindo). Só eu ali que não achava meu lugar. Mostrava o papel pra um, ele me mandava lá pra onde Judas perdeu as botas. Mostrava o papel onde Judas perdeu as botas e me mandavam pra onde o vento faz a curva… Minha vontade era mandar todo mundo pro inferno, roubar um carro e sair correndo!

Eu tenho um negócio em mim, que aguça ainda mais quando estou em viagem, chamada desconfiança. Na estrada eu nunca acredito no que a pessoa me fala de primeira. Se o cara me fala um preço eu não acredito, preciso confirmar. Se outro me da uma informação, eu não acredito, preciso constatar. As vezes isso me faz andar em círculos. Outras me ajuda a economizar. Nessa situação foi bem os dois.

A informação mais precisa que eu tinha até agora era que a van para “red bridge” estava do outro lado da ponte. Eu já tinha atravessado o viaduto e perguntado para o único carro que estava parado lá. Entre mímicas e algumas sentenças na língua do “hã”, eu entendi que aquele não era o carro certo e decidi seguir a instrução dele e procurar num pátio ao lado do posto de gasolina do outro lado da rua (já fora da Station Square). Lá me mandaram de volta para o mesmo local que eu acabei de vir. Apita a desconfiança. Peraí, todo mundo está me mandando para o mesmo lugar, ou o cara está com má vontade de me levar (talvez por conta do tamanho da minha mochila ou porque não aceitei pagar caro quando me ofereceram ir de taxi não de van) ou existe um armário mágico que eu não reparei, que se eu entrar por ele vou cair direto num acento na janela da marshrutka para a fronteira. Como não curto muito essa pegada Nárnia, então fiquei com a primeira opção. Teimosia é outra característica que até hoje não sei como não me matou nessas viagens.

Dito, matutado e feito. Fiquei rondando a área que nem mosca na bosta, ou melhor, que nem urubu na carniça, porque mosca ainda tira uns pedaços. Eu fiquei só chupando o dedo mesmo. Meu plano era alguém que fala o mínimo de inglês se manifestar e brigar por meu lugar no carro, comprovando minha teoria da conspiração ou, o motorista perceber que eu não iria dar o braço a torcer pela proposta de ir de taxi e acabar cedendo o lugar na sua van. O velho vencendo pelo cansaço. Cansei. Perdi. Cruzei o mini viaduto de volta pra muvuca da Station Square, tirei o papel traduzido do bolso e mostrei para a primeira marshrutka avulsa que vi na frente. “Red Bridge! Fronteira! Azerbaijan!”. “Yes! Yes! Enter! Enter!”. Meu Deus, tão rápido. Preciso de um tempo para desconfiar e confirmar. Já era! Já estava espremido na última fileira entre duas teenagers do riso frouxo e um típico georgiano que sempre parece bêbado brigando num bar, mas que na verdade é um cara normal apenas conversando amigavelmente. Olho pra baixo, meus pés estão apoiados num banquinho de madeira improvisado. Olho para frente, está rolando uma confusão entre a última passageira e o motorista totalmente sem paciência com a barrequeira (preciso dizer que estava torcendo pro velho, mesmo provavelmente ele estando errado. Ele tinha cara de errado, mas carisma é tudo). O não bêbado com cara de bêbado do meu lado resolve entrar na briga. Pior, iniciar uma nova briga. Queria por que queria colocar o motorista na linha com alguém do celular dele. O vei negava. O não bêbado passava o telefone para a fila da frente, que repassava para fila posterior e quando estendiam o telefone pro motorista ele fala “ეს არ არის ამ ფირფიტის გატეხვა!” (sim, eu inventei esse diálogo. Só pra você entender como é difícil de entender a língua deles). Voooolta o celular! E essa brincadeira durou umas boas meias horas. Eu estava desesperado pra partir e atravessar logo a fronteira? Eu não. Continuava leve (e espremido ali). Ainda mais depois de pescar em uma das conversas um som que me remeteu a “Azerbaijan”. Pronto. Tomei aquilo como a evidência que precisava para acalmar minha eterna desconfiança. Consciência domada que se dane o resto (mesmo que eu esteja dentro do resto, dependendo do resto, junto com o resto). O que vier é consequência e já estava escrito. Ah! Adoro essa sensação de desapego. Isso sim é confirmação. Confirmação que estou no caminho certo. A serenidade na mente de quem vai viver o que tem de viver.

Dentro da marshrutka, as famosas vans da Geórgia

Tudo aparentemente resolvido. Pé na estrada (ou pé no banquinho) e tchau Tbilisi! Não sentei na janela, mas meu coração estava que nem claraboia, passando paisagens bem rápido, sem dar tempo de pensar muito no que são, no que significam, só mesmo se apresentando para admiração. Só consigo pensar que me sinto bem. Sei os passos que virão em seguida. Estou aguardando todos eles, sem ansiedade. Desde o frio na barriga de passar por mais uma fronteira exótica, até o aperto no peito de tudo novo e agora? Opa! Surge uma interrogação. Então terei respostas, realmente não preciso me preocupar.

Chego à fronteira. Antes de passar pela imigração, verifico se está tudo certo com os papeis. Sim, está aqui comigo o papel e o visto impresso, sem ele era meia volta e tchau Azerbaijão. Aquela desconfiança apita de novo e eu verifico se o papel esta aqui comigo (isso é TOC, é doença, tenho essa mania de repetir as coisas até três vezes).

Missão número 1 completada. Passo pela primeira imigração e recebo o carimbo de tchau Geórgia. Preciso abrir um parêntese rápido aqui (eu estava andando esses dias na rua e do nada, literalmente do NA-DA, eu paro e penso, de novo literalmente eu paro, no meio da rua, e penso, lite.. Ok, já deu para entender. “Meu visto da Geórgia estourou (ponto)”. Bateu, em uma fração de segundos, o desespero. Deu merda, deu merda de novo, contei os dias errados que nem na Turquia [essa é outra história] e perdi o prazo da data de saída. Calma, Willyboy. Respira. “Quantos dias mesmo é o visto da Geórgia?”. A resposta foi: 90 dias. Não 30 como o (ponto) ali afirmou. Ufa! Que lapso foi esse. Volto a andar. Literalmente falando).

A popular fronteira da “Red Bridge”, entre Geórgia e o Azerbaijão

Hora de enfrentar a missão número 2. Papel na mão (está aqui mesmo. Deixa eu verificar…). Estou de frente para o guarda da imigração azeri. Cara fechada (tem que mostrar serviço). Olha para o passaporte, olha para minha cara. Procedimento normal. Folheia as páginas (muito provavelmente procurando um visto da Armênia). Não acha nada. Acha apenas a primeira página com as minhas informações pessoais. Ele lê alguma coisa que faz arquear suas sobrancelhas. Volta rapidamente para a capa do passaporte e olha pra mim de novo. Agora com o sorrisão. Já sei o que você leu (Brasil, sil, sil!). Toma carimbo! Pei! Eu recebo, amém!

Antes de passar pelo detector de metais, mais alguns apertos de mãos, sorrisos e a pergunta que não quer calar: Por que o Azerbaijão? Respondi prontamente pela primeira vez, esse questionamento que tanto iriam me fazer pelo país adentro. É, se eu parasse pra pensar, é bem louco mesmo escolher o Azerbaijão. Mas eu nunca paro, então… Ramo que ramo!

“Salam, Azerbaijão!”

Ah! O que eu respondi pra ele? Não lembro, mas o que responderia agora seria: “vim caçar interrogações (ponto)”.

Já no lado do Azerbaijão

5 0 249 10 setembro, 2017 Ano Sabático, Azerbaijão setembro 10, 2017

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Facebook Comments

Pesquisar

Willy Barros



Sim sou eu, o filho desnaturado que foi morar na África aos 17 anos e desde então não consegue mais parar de viajar. Agora, depois de graduar e guardar uma grana, caí na estrada e estou vivendo o sonho da volta ao mundo.

Dá um follow no Instagram